Se eu fosse Lisboa, Amsterda ou Dublin teria vergonha de dizer que estou no mesmo continente que Paris.
Cheguei totalmente sonambula a Cidade Luz. Uma noite em claro, os olhos (MUITO) inchados e uma vontade enorme de soh ir para o hotel dormir.
Paris parece ter se ressentido da minha pouca vontade de ve-la. Um sacrilegio para meio mundo, como lembrou papis. O dia estava horrivel, o ceu branco de assustar muitos irlandeses e chovia uma garoa chata. A pista estava molhada e o piloto arremeteu. Nunca tinha acontecido isso comigo e a sensacao eh realmente horrivel. Ja fiquei imaginando o acidente, Re tendo de trabalhar para reconstituir a minha vida e a manchete do jornal com o meu nome.
"A jornalista goiana Meg Miles da Silva Sauro sempre sonhou em conhecer Paris, mas nos ultimos dias mostrou resistencia em viajar para a cidade, conta a amiga Fulana de Tal. 'Parece que estava sentindo', diz entre lagrimas.Se eu queria acordar...
Outra coisa que a cidade me negou foi usar oculos escuros. Ja tinha planejado passar o dia com a cara enfiada neles, para disfarcar meu abatimento que base nenhuma no mundo conseguiria disfarcar.
Eu ate uso oculos escuros com o ceu nublado, mas garoando nao dah.
A imigracao foi a mais tranquila de todos as milhares que passei. O cara nao fez uma pergunta sequer. Soube mais tarde que eh uma das mais chatas da Europa. Nao comigo. Eu nao aguentaria.
Claro que peguei taxi para o hotel. E claro que ficou caro. E eu continuo mais sem senso de direcao que nunca. Nessa viagem, nao melhorei em NADA.
O
hotel eh fuleiro e o recepcionista eh o Xavier, do Felicity. Igualzinho. Sem tirar nem por. Ate o sotaque para falar ingles. Me deu todas as dicas e favoreceu todos os seus carteis.
Coloquei a bagagem no meu quartinho sem banheiro, fuleiro toda vida e sai disposta a me perder. Coisa que aconteceu milhares de vezes, claro.
Primeira parada: loja da esquina do hotel - que fica no Quartier Latin, segundo
Nina, o bairro mais cool da cidade. Motivo da parada: precisava de uma sombrinha. Terceira pessoa que tive contato na cidade, terceira pessoa simpatica. Me apontou a torre da Notre Dame. E para la eu fui. A fila para entrar estava imensa e resolvi dar uma olhada naqueles onibusinhos de turistas que tem em todas as cidades que fui. Desde Lisboa queria passear em um deles, nada mais cliche, eu sei, mas queria.
Em Paris, ele foi a minha salvacao.
Para alguem com a inteligencia espacial como a minha, eles sao uma bencao. Param em todos pontos legais, tem audio tour e vc paga 24 euros e pode andar por 48 horas.
Antes de comecar o tour, sentei num cafe, pedi um crepe e me senti a pessoa mais independente do mundo. Um crepe e uma coca: 14 euros. Saladinha de alface de entrada e soh.
Peguei o onibus, desci na torre e comi a lingua, claro.
Sempre xinguei, dizia que nao tem a menor graca e essas coisas que eu vivo falando sem saber. Minha cara. Amei. La de cima liguei para mamis e tive a certeza de que ela nao vai subir. A vista de Paris eh de tirar o folego. Circulei por la, olhei tudo que quis, vi o carrosel que uma amiga adora e comprei uma caixa de bolachas que foi o souvenir mais legal que encontrei na lojinha oficial. Alias, os souvenirs de la sao totalmente sem graca. Foi dificil achar algo para mamis nao me matar depois.
Voltei para o onibus desviando da multidao. Incrivel como tem gente nas ruas. Paris recebe 24 milhoes de turistas por ano. E o engracado eh que os parisienses estao cagando para isso. Precisamos de um curso intensivo com eles de como sermos mais nos mesmos.
Ao longo da tarde, desci em varios outros pontos. Eh muita coisa para ver. Eu nao sabia se olhava para o Sena ou se me divertia de ouvir as mais diferentes linguas. Alias, ouvi muito portugues por la. Claro que caminhei pela Champs-Élysées e olhei todas as vinitres. Claro que olhei todas as capas da Vogue e babei nas vitrines das marcas mais glamourosas do mundo.
Alias, por falar em glamour, eu ter pisado em Paris de tenis foi no minimo ironico. Glamour zero.
Proxima parada: Notre Dame. Constatacao: subi os mais de 400 degraus ate a torre e nesta vida nao farei mais isso. Estou livre. Eh como ir ao Corcovado no Rio, vc vai uma vez e se liberta. Depois pode aproveitar a cidade em todas as outras vezes que volta. A vista eh linda, eu adorei o sino, mas quase morri. Minhas pernas tremiam e lembrei do Bola quando passei pelas escadas estreitas. Ainda bem que nao tive de pagar os 8 euros que cobram para isso. Minha supercarteira de jornalista em acao. Mil vezes a catedral por dentro e, de graca! Vai parecer estranho se disser que a minha parte favorita sao os vitrais? Como foi a primeira vez que entrei nela, fiz um pedido. Mamis sempre diz que podemos fazer um pedido quando entramos em uma igreja pela primeira vez. Pedi para que ela fosse a Paris.
De volta ao onibus e dessa vez para ver a torre a noite. Aff... Que coisa linda. Milhares de pessoas circulavam pelas ruas. As 21h, eu estava morta. Me perdi na volta para o hotel e peguei um taxi para andar duas ruas e gastar 6 euros. Na vizinhanca, bares legais com gente bonita. Mas nao dava para mim. Estava sozinha, com uma noite atrasada e queria muito aproveitar o domingo.
Dormi como um anjo na cama fuleira do meu hotel fuleiro com um aquecimento meia-boca.
No domingo acordei cedo e surpresa: achei a amiga de infancia que mora em Paris. Papis revirou Goiania e a achou para mim. Cara, definitivamente eu sou boa para fazer amigos. Isso eh uma bencao na minha vida. Quando eu nasci, Deus disse: essa garota vai pastar na mao dos namorados, mas em compensacao, vai ser cheia de amigos!
A encontrei na porta do Louvre apos o meu cafe da manha no hotel, composto de bolachas de chocolate compradas na vendinha ao lado. Alias, parte delas foi o meu jantar no dia anterior.
Meu Deus, eu preciso de um mes para conhecer o Louvre. Vi o basico e saih de la sentindo que falta muito. Queria um professor da historia da arte para ir me contando detalhes legais. Ah, vi a Monalisa, claro. Olhando todos a volta.
Nao paguei a entrada e nao achei nada legal nas lojinhas de la.
Saimos e fomos almocar em um restaurante destes que vejo nos filmes. Sonhava em fazer isso. Aquelas mesas na calcada, com guarda-sois. Hora de atualizar a vida da amiga: largou um emprego de 12 anos em uma grande empresa de Goiania e chegou a Paris ha 10 meses, com a cara e a coragem. Chegou perto do inverno, dormiu tres meses dividindo um colchao de solteiro com uma amiga e esta muito bem, obrigada. Nao troca aquilo ali por nada.
Qual o segredo? Morar em um lugar que sempre te proporciona novidades, gente diferente, culturas diferentes.
Pessima influencia para mim. Mais um dia, me convence.
Depois do almoco: sorvete da Häagen-Dazs. Estava com desejo desde Portugal. Duas bolas e 5 euros. Mais barato do que no Brasil.
Tentei ir a Galeries Lafayette mas estava fechada. Alias, boa parte do comercio estava. Nao uma loja de oculos onde fiz a maior loucura desta viagem. Um Ray Ban por 126 euros. Me perguntei: vivo sem ele? No way.
Na volta ao hotel me perdi mais uma vez e perdi tb o meu transfer, que o Xavier jura que era 17h15 e eu juro que era 17h50. Pronuncias parecidas no nosso pessimo ingles. Alias, meu ingles foi mais util em Paris do que em qualquer outro lugar.
Taxi para o aeroporto carissimo e alem de perdida no espaco, perdida no tempo, porque hoje acabou o horario de verao aqui e tem fuso de uma hora entre Dublin e Paris.
No Charles de Gaulle me ferrei. No meu setimo voo, o sexto internacional, ja estava esperta negando todas as perguntas e passando de boa nas revistas de bagagem de mao. La, tive de abrir tudo. Perdi meu desodorante e tive de tirar as botas.
Na sala de espera, fiquei totalmente impaciente. Criancas em aeroporto me cansam. Estao sempre cansadas e enjoadas. Quando estao de boa, conversam muito. E eu nao tenho filhos, ou seja, nao tenho de aguentar os filhos dos outros.
Por falar em aeroporto, estou no de Dublin, para variar. 3h38 aqui. Seis euros depois, tenho de ir. A grana ta curta.
Ah, claro que adorei Paris. Anotei um monte de coisas para escrever, mas joguei o papel fora no limpa que fiz na minha bagagem para tudo caber nas milhares de malas que tenho de carregar.
Vou lembrar de mais coisas e talvez escreva de Lisboa, minha proxima parada. Passo o dia la amanha. Voo para Brasilia a noite e chego a Goiania na terca.